quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Resenha: Celly Campello - Box "Estúpido Cupido"


Hoje, ao invés de um disco, trago uma resenha que para o relançamento dos seis álbuns gravados por Celly Campello na Odeon.

Tendo começado a comprar discos há dez anos, em fevereiro de 2001, eu, então com 14 anos comecei a ter algumas fixações: a primeira delas havia sido pelos discos de 78 rotações. Em seguida, achei um 45 rpm com Nat Cole cantando “Noche de Ronda” e passei a escutá-lo muito (curiosamente, naquela época eu gostava muito mais de seus discos em espanhol do que o resto de sua discografia, que é muito superior). Finalmente, minha maior fixação, que durou mais tempo, foi com o rock brasileiro pioneiro da virada dos anos 50 para os 60.

Hoje estou mais ou menos “curado” dessa febre, mas continuo ouvindo pela milésima vez as músicas de Tony Campello, Ronnie Cord, Carlos Gonzaga e, principalmente, Celly Campello. Com o tempo, descobri muito mais gente daquela época cantando roquezinhos (a última foi Neuza Maria com “Balada Alegre” que até tenho escutado bastante), mas até hoje considero que a principal referência dessa geração seja mesmo Celly. E acredito que essa opinião é mais ou menos geral.

Conheci suas músicas meio por acaso, num dos primeiros discos que comprei: a trilha sonora da novela Estúpido Cupido, de 76, um dos LPs mais fáceis de encontrar em qualquer lugar. Conforme fui ficando mais ligado ao rock, passei a procurar incansavelmente as músicas que ela gravou. E até então não existiam blogs como este, poucas pessoas sabiam transferir músicas a partir dos discos e com quase nada em relançado CD – isso tudo aliado à crise que levou ao fim o Napster e o Audiogalaxy, dificultando o compartilhamento em mp3 – a maneira mais fácil de encontrar o que ela tinha gravado, por incrível que pareça, era caçando seus velhos discos da Odeon, que já naquele tempo eram difíceis de achar.

Assim, entre maio de 2002 e julho de 2003 fui encontrando, com muita paciência, um por um, os sete discos que ela fez. O primeiro que tive, e que veio de Juiz de Fora, foi o Estúpido Cupido (na hora que o LP chegou, pelo correio, um susto: o título diferente no selo – Come Rock With Me – me deixou momentaneamente achando que o disco viera trocado). O último, que veio de Santos, foi “A Graça de Celly Campello e as Músicas de Paul Anka” que me deixou com uma sensação não muito agradável de missão cumprida. No meio do caminho, a descoberta de raridades como o “Annette Sings Anka”, álbum dificílimo, que comprei pelo eBay e demorou três meses para chegar, de navio, e de onde o disco de Celly foi premeditadamente copiado (e ninguém sabia), foi muito bacana.

O fato é que eu imaginava naquela época que estes discos todos, assim como os de Tony Campello, Ronnie Cord e Carlos Gonzaga, deveriam ser relançados – pelo valor histórico e pela vontade de pessoas como eu tinham de ouvir estas músicas sem chiados, interferências e outros problemas. Só não sabia quando é que isso iria acontecer – ou mesmo se haveria mercado para isto.

Por acaso, recebi essa semana um e-mail do site da Discobertas informando estar disponível para compra um “box” com os seis discos gravados por Celly na Odeon em 1959 e 1968. Comprei imediatamente, mesmo já possuindo todas aquelas músicas. Sabendo que era uma produção do Marcelo Fróes, já imaginei uma edição cheia de faixas-bônus, capas e contracapas, textos e fotos.

E não fiquei decepcionado. Pela primeira vez estão reunidas em CD praticamente todas as 78 músicas que Celly gravou para a Odeon. Digo praticamente, pois, como colecionador, não posso deixar de notar a ausência de uma “quase faixa”, uma bobagem que no final das contas não faz a menor falta, que é a minúscula participação da cantora num disco do comediante José Vasconcellos, cantando menos de vinte segundos de uma paródia muito mais ou menos feita pelo próprio para Banho de Lua, uma curiosidade apenas que, se presente seria bem vinda, mas em falta, não faz a menor diferença.

Marcelo Fróes teve uma boa lembrança ao incluir, em “Canário” o diálogo original entre Celly, Tony e Hebe Camargo disponível apenas no raro LP “Hebe Comanda o Espetáculo”, de 61 (embora a faixa tenha sido um pouquinho modificada, sem as palmas ao final e com a música começando um tanto antes, ao comparada com a versão do LP).

Por outro lado, estão as capas de todos os compactos duplos que gravou na Odeon, inclusive os lançados em Portugal pela Parlophone e rara capa que o 78 rotações de natal contendo “Vi Mamãe Beijar Papai Noel” e “Jingle-Bell Rock” ganhou em 1960. Foram inseridos, também, os selos originais dos discos, bem como uma série de fotos raras em vários momentos da primeira fase de sua carreira, inclusive algumas capas da famosa “Revista do Rock”.

Como já é costume nos lançamentos realizados por Fróes, a arte original do disco está preservada, perfeita. As resenhas originais dos álbuns estão reproduzidas no encarte e, como surpresa especial, há textos complementares contando detalhes das músicas e das gravações que foram escritos por outro pioneiro – Albert Pavão, e, por isto mesmo, especialíssimos. Por ele, por exemplo, ficamos sabendo que o LP Estúpido Cupido foi gravado nos estúdios da RGE e que o disco Broto Certinho foi o mais vendido de 1960.

Sobre a qualidade do áudio, em primeiro lugar é preciso falar da alegria de escutar, pela primeira vez, as gravações realizadas em 1968 em Estéreo. Eu estava com medo de, por um descuido qualquer, elas saíssem novamente em mono, como no disco – que saiu com 90% das raras cópias em mono, embora tenha existido uma versão ainda mais difícil de encontrar do LP original em som estereofônico. Agora é possível observar muitos detalhes que estiveram encobertos na mixagem feita para apenas um canal. A música “Ao Meu Amor”, por exemplo, nunca havia sido ouvida em estéreo uma vez foi lançada apenas em compacto (que naquela época, só saia em mono).

Se a remasterização não foi a mais perfeita (gostei mais dos trabalhos de relançamento realizados na série Odeon 100 anos, na caixa da Elza Soares e de Wilson Simonal, todas do acervo da EMI), pelo menos a qualidade é bastante razoável, a não ser nas duas faixas-bônus do primeiro volume, “Devotion” e “O Céu Mudou de Cor”, que, possivelmente por não terem sido localizadas as matrizes originais, vieram com o som diretamente do 78 rotações em condições bastante precárias, único ponto que me chateou um pouco neste lançamento.

Quase dez anos depois, ao ouvir, faixa a faixa novamente, eu consigo compreender que o que Celly cantava não era propriamente rock, que os músicos que os acompanhavam não eram exatamente roqueiros e que, mesmo sem saber ou sem querer, o que ela fazia naquela época era digerir tudo aquilo que vinha de fora e imprimir um acento local muito forte. Pudera, com o acordeonista Mario Gennari Filho no acompanhamento e o coro dos Titulares do Ritmo, e ainda cantando letras bem feitas ou adaptadas por Fred Jorge, era possível não fazer música brasileira? Duvido.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Eleonora Diva :: Eu Sou Assim [1961]

Com o compartilhamento de informações hoje disponível sobre música brasileira na internet e os mais diversos blogs que tratam desse assunto eu acreditava que, em se tratando da música dos anos 50 e 60, não havia mais ninguém ainda que eu não tivesse ideia de quem fosse – restavam, sim, muitos discos ainda a caçar. 

No entanto, deparei-me hoje com este LP da desconhecida Eleonora Diva. Confesso que seu nome não era, de todo, estranho para mim. Ao examinar rapidamente o disco, não consegui localizar na minha memória quem realmente ela era ou o que tivesse gravado (uma música ao menos). Tanto é, que de pronto pensei que fosse uma daquelas cantoras portuguesas que, como Rosária Meirelles, Ester de Abreu e Gilda Valença gravaram uma série de LPs no Brasil pela Sinter e Musidisc.

O acompanhamento do maestro Carlos Monteiro de Souza e a presença da música “Quem Foi”, de Dolores Duran, no entanto, me deram o palpite que eu deveria estar provavelmente errado – e acabei levando o disco.

Após uma busca pelos sites, descobri que Eleonora participou do disco “Um Milhão por uma Canção” (e era daí que eu conhecia seu nome), gravou este disco (primeiro e único LP), participou de uma coletânea na Philips, lançou pelo menos mais dois compactos na Copacabana e, bem, e as informações pararam por aí. Não há mais nada sobre ela. 

Passando a agulha pelo disco gostei do que ouvi e resolvi trazê-lo para o blog. O acompanhamento do maestro Monteiro de Souza é bem executado e a voz quase grave (eu achei que lembra um pouco a voz de Nora Ney) da cantora é bastante agradável de ouvir. Se o repertório não é de todo excelente – há grandes bossas, sem dúvida, mas um ou outro bolero poderia sem prejuízo ser dispensado – a maneira de cantar de Eleonora Diva me agradou bastante. Espero que você também ache o mesmo.

Faixas:
01 - Eu Sou Assim [Fernando César / Jorge Iara]
02 - Dona do Destino [Hélio Costa / Avarese]
03 - Quem Foi [Ribamar / Dolores Duran]
04 - Meu Mundo É Você [Hélio Costa]
05 - Um Novo Céu [Fernando César / Ted Moreno]
06 - Quem Mandou [Jair Amorim / Valdemar de Abreu ]
07 - Você Voltou [Nelson Souto / Antônio Carlos de Souza e Silva]
08 - Teu Nome [Ribamar / Osmar Navarro]
09 - Obrigado Senhor [Bidú Reis / Murillo Latini]
10 - Uma Vez Mais [Jair Amorim / Evaldo Gouveia]
11 - Meu Defeito [Jota Santos]
12 - Não Voltarás, Nem Voltarei [Georges Moran / Valter Nogueira Da Silva]

Philips P 630.450 L. Alta Fidelidade.
Toque o microssulco, aqui.

domingo, 6 de março de 2011

Neusa Maria :: O Disco de Ouro [1957]


Neusa Maria, cujo nome ora se escrevia com "s" ora se escrevia com "z", como se pode observar na capa de seus LPs, era de São Paulo e fez sucesso mudando-se para o Rio. Ainda do tempo dos dez polegadas, gravou vários deles pela gravadora Sinter.

Dona de bonita voz, em 1957, quando as gravadoras brasileiras começaram a soltar seus discos em 12 polegadas, foi convocada por seu selo na época para estrelar um dos primeiros discos em formato grande. Para tanto, ganhou composições inéditas de diversos autores de prestígio como Ary Barroso, Lamartine Babo e Ataulfo Alves; e o resultado é o disco que você vai ouvir agora.

Como muitos intérpretes de sua época, seu sucesso foi diminuindo com a invasão de novos ritmos e assim Neusa deu sua carreira por encerrada na virada dos anos 50 para os 60. Consta que, desde então, mora em um apartamento no Rio Comprido.

Faixas:

01 - Eu Pecador [Billy Blanco]
02 - Não Quero Mais [Ary Barroso]
03 - Balança Eu [Nestor de Hollanda - Luiz Gonzaga]
04 - Deixa [Antônio Almeida]
05 - O Rapaz de Minha Rua [Lamartine Babo - Roberto Martins]
06 - Deixa Que Diga Teu Nome [Antônio Maria]
07 - Meu Portugal [Ataulfo Alves]
08 - Tão Bom [René Bittencourt]
09 - Quem Mandou [Jair Amorim - Dunga]
10 - Não e Não [Fernando Lobo]

Sinter SLP 1.705. Alta Fidelidade.
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Pocho :: Baile Bem Bom [1960]


Continuando a série de repostagens, segue o microssulco "Baile Bem-Bom", disco instrumental do maestro Ruben Pérez (o "Pocho") lançado pela RGE em 1960. O post original é de 23/10/2006:


Outro grande disco instrumental. Ruben Perez, o maestro Pocho, era um pianista e regente que viveu no Brasil e dirigiu a RGE durante o começo dos anos 60. Este disco, de 1960, traz uma coleção de "best-sellers" do momento:

Faixas:

01 – Carina (R. Poes)
02 – Nasal Sensual (Juca Chaves)
03 – Alguém me Disse (Jair Amorim – Evaldo Gouveia)
04 – Cheiro de Saudade (Djalma Fereira – Luiz Antonio)
05 – Total (Ricardo Garcia Perdomo)
06 – Pretty Blue Eyes (Randazzo – Weinstein)
07 – Meditação (Antonio Carlos Jobim – Newton Mendonça)
08 – Pillow Talk (Buddy Pepper – Inez James)
09 – Samba de Uma Nota Só (Antonio Carlos Jobim – Newton Mendonça)
10 – The Wind Cannot Read (Peter Hart)
11 – Quando Vien la Sera (Testa – C. A. Rossi)
12 – Chore Comigo (Adelino Moreira)

RGE XRLP 5.077. Alta Fidelidade.
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domingo, 27 de fevereiro de 2011

Hebe Comanda o Espetáculo [1961]


Este é um bom disco – mas, se é verdade que nos anos sessenta a propaganda dos LPs era feita através de suas capas, a sala cafona que serviu de cenário para a foto não deve ter atraído muitos compradores.
César Villela criou excelentes capas enquanto trabalhou para a Odeon entre 1957 e 1962, mas, acostumado a trabalhar em dupla com o fotógrafo Chico Pereira (em que os dois ajustavam a melhor concepção da foto para produzir um grande layout), não pôde fazer muita coisa quando Nagib Allit, de São Paulo, lhe enviou esta foto como produto pronto para estampar o terceiro LP de Hebe Camargo:
Carpete, quinhentos sofás, almofada, comigo-ninguém-pode no clássico vasinho com água parada, três quadros estranhos, um dos quais, torto; um abajur com a cúpula também torta, mesinha pé-de-palito, cortinão tipo “convite à poeira”...
Tá. Esquecendo isto, “Hebe Comanda o Espetáculo”, que era também o nome do primeiro programa que Hebe comandou na TV (no caso, na TV Continental, aqui no Rio) foi um disco que talvez se possa se classificar hoje como “coletânea” – a Odeon juntou seus principais contratados de São Paulo (com Pery Ribeiro como agregado) e, com eles, gravou as músicas do momento – colocou Hebe como “hostess", lhe deu seis números para cantar e ainda acoplou palmas e microentrevistas para dar aquela impressão de “ao vivo” (não sei se alguém acreditou).
Ao longo do disco, Hebe convoca um a um de seus convidados e lhes pergunta a música que vão cantar ou então qual seria a música que gostariam de ter gravado. Pery Ribeiro, por exemplo, revela “muito em segredo” que a música que ele sempre teve vontade de gravar e que, se conseguisse, se sentiria “bastante realizado por tudo que fez na vida” é o bolero “Cantiga de Quem Esta Só”, que só nos anos de 1960 e 1961 teve nada menos que oito gravações antes da dele.
Isaurinha Garcia apresenta uma excelente gravação de “Só em Teus Braços”, com arranjo inspiradíssimo e ótima interpretação – uma surpresa. Outra surpresa são as duas grandes interpretações que a própria Hebe faz para “Desse Amor Melhor”, de Antonio Maria e Pernambuco, composta especialmente para ela e “Eu Tenho Adoração por meus Olhos”, regravação de uma bonita canção esquecida, que havia sido lançada em 1928.
Celly e Tony Campello apresentam “Canário”, derradeiro sucesso de Celly gravado pouco antes de sua aposentadoria aos 20 anos e finalmente o grande cantor de sambas Germano Mathias (que merecia muito mais reconhecimento, fama e dinheiro do que possui hoje) apresenta a criativa “Bonitona do Primeiro Andar”, com acompanhamento de Walter Wanderley. Atenção à sua “cuica de boca” que ele apresenta antes da música – esse cara é um gênio!
Mesmo se a intenção da Odeon foi a mais comercial possível, conseguiu produzir um bom álbum bem interessante. E, se após escutar as músicas o conteúdo agradar, é só fazer o que recomenda a própria Hebe Camargo: “se quiserem um bis, não, não façam cerimônia; é só colocar o disco novamente”.

Faixas:

01 - Cantiga de Quem Está Só [Jair Amorim - Evaldo Gouveia] com Pery Ribeiro
02 - Faz-me Rir [Me da Risa] [E. Arias - Francisco Yoni - Vrs. Teixeira Filho] com Hebe Camargo
03 - Quem Quiser Encontrar o Amor [Carlos Lyra - Geraldo Vandré] com Walter Wanderley
04 - Desse Amor Melhor [Pernambuco - Antônio Maria] com Hebe Camargo
05 - Canário [Yellow Bird] [Norman Luboff - Marilyn Keith - Alan Bergman - Vrs. Fred Jorge] com Celly Campello - Tony Campello
06 - No Domingo Não [Never On Sunday] [Hdjidakis - Larue - Vrs. Romeo Nunes] com Hebe Camargo
07 - Só Em Teus Braços [Tom Jobim] com Isaura Garcia
08 - São Francisco [Vinicius de Moraes - Paulo Soledade] com Hebe Camargo
09 - Maria Rosa [Lupicínio Rodrigues - Alcides Gonçalves] com Francisco Egydio
10 - Eu Tenho Adoração Por Meus Olhos [Marcelo Tupinambá - Cleômenes Campos] com Hebe Camargo
11 - Bonitona do Primeiro Andar [Jorge Costa - Durum Dum Dum] com Germano Mathias
12 - O Dia Em Que Me Queiras [El Dia Que Me Queiras] [Alfredo Le Pera - Carlos Gardel - Vrs. Ribeiro Filho] com Hebe Camargo - Osny Silva

Odeon MOFB 3.224. Alta Fidelidade.
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sábado, 5 de fevereiro de 2011

Alcides Gerardi :: Os Grandes Sucessos de Alcides Geradi [1963]


Alcides Gerardi já cantava suave desde os seus primeiros discos em 78 rotações da Odeon em meados dos anos 40 e tinha sido contratado pela Columbia que, assim como fazia com praticamente todo o seu cast, programara-lhe uma saraivada de gravações de boleros, versões e outros ritmos que saiam em seus inúmeros LPs.

Não que sejam gravações ruins, muito pelo contrário: o bom Alcides sabia dosar muito bem sua voz e imprimir bom gosto em cada um do seus lançamentos. Sabendo disto, a Odeon tomou-lhe emprestado da então CBS para uma série de regravações de seus sucessos com arranjos de Sererino Araújo, Edmundo Peruzzi e  Lyrio Panicalli.

O resultado foi este LP, de 1963, que foi reprensado uma infinidade de vezes: pudera - as gravações são todas ótimas! Os arranjos elegantes com que os maestros vestiram seus velhos sucessos valorizaram muito todas as músicas - desde Antonico, derradeiro sucesso de Ismael Silva até Brotinho Maluco, em minha opinião (cuja gravação original, de 53, não tem metade da leveza desta), a melhor do disco. 

Faixas:

01 - Marise [Carlos Amorim - Miguel Miranda]
02 - Brotinho Maluco [Haníbal Cruz]
03 - Você É Que Pensa [Roberto Roberti - Valdemar de Abreu]
04 - E Eu Sem Maria [Dorival Caymmi - Alcyr Pires Vermelho]
05 - Castelo de Areia [Isaias De Fretas - Geraldo Jacques - Moreirinha]
06 - Dedo De Luva [Humberto Carvalho - Afonso Teixeira]
07 - Antonico [Ismael Silva]
08 - Ansiedade [Antônio Paurilio]
09 - Professora [Benedito Lacerda - Jorge Faraj]
10 - Suely [Antenógenes Silva - Miguel Lima]
11 - Lei de Deus [René Bittencourt]
12 - Pergunte A Ela [Fernando Martins - Geraldo Pereira Dos Santos]

Odeon MOFB 3.340. Alta Fidelidade
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Carmen Costa :: 30 Anos Depois [1973]


Sempre gostei muito da Carmen Costa pois eu a achava muito autêntica no que cantava. A sua maneira de colocar a voz, os seus temas de suburbano sofrimento e até mesmo a maneira de pronunciar as palavras me cativaram muito. Sempre. 

Suas gravações pela Copacabana, nos anos 50 são tão perfeitas que conseguimos ter a certeza de que ela realmente estava sentindo tudo aquilo que cantava - talvez mais que isso: Carmen conseguia resumir com maestria o sentimento de resiginação diante dos fatos amargos do nosso cotidiano simples e comezinho, dos nossos dramas de amor mal resolvidos e das histórias comuns de cada um, em que não existe mais o ódio ou a raiva, apenas o sentimento de acomodação diante dos fatos, nem felizes nem tristes ao extremo, com os quais, se não podemos lidar, apenas aceitamos e tentamos seguir em frente. Para mim, as músicas de Carmen sempre espelharam ao extremo os sofrimentos pessoais, com impressionante verossimilhança - e isso sem dúvida se deveu em grande parte ao seu modo bastante coloquial e peculiar de cantar. 

Gosto muito de seus discos, tanto é que, enquanto fiz a graduação na Uerj, acredito não ter havido um dia em que, passando no 457 ou mesmo de carro pela Praça da Bandeira eu não tenha lembrado dessa simpática senhora que eu sabia morar ali pelas redondezas, talvez pela Rua do Matoso ou mesmo no início da Mariz e Barros.

Mesmo com seus altos e baixos em sua carreira, Carmen sempre soltou bons discos e este, de 1973 é um deles. Gravado em "comemoração" aos 30 anos da primeira gravação de Carmen na Victor - a sempreviva "Está Chegando a Hora" - surgem novas gravações para grandes sucessos seus "Eu sou a Outra", "Quase", "Só Vendo que Beleza" ao lado de músicas do momento como "A Flor e o Espinho" e "Amor pra Que Nasceu" e uma estupenda versão (para mim, até hoje, a melhor) de "Gente Humilde". 

E novamente surge a voz de Carmen Costa, em grandes arranjos e como sempre, em seu melhor estilo.

Faixas:

01 - Quase [Mirabeau - Jorge Gonçalves]
02 - Mesa de Bar [Paulo A. Barata]
03 - Gente Humilde [Garoto - Vinicius de Moraes - Chico Buarque]
04 - Só Vendo que Beleza [Henricão - Rubens Campos]
05 - Nem Reu, Nem Juiz [Carvalho - Eduardo Gudin]
06 - A Flor e o Espinho [Nelson Cavaquinho - Alcides Caminha - Guilherme Brito]
07 - Eu sou a Outra [Ricardo Galeno]
08 - Desolação [H. Bello de Carvalho - Paulinho Tapajós]
09 - Amor pra que Nasceu [Martinho da Vila]
10 - Obsessão [Mirabeau - Milton Oliveira]
11 - Bateu, Doeu [Paulo A. Barata]
12 - Depois de Tanto Amor [Paulinho da Viola]

RCA Victor 103.0069. Estereofônico.
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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Dick Farney :: Penumbra Romance [1972]

Este álbum marcou a volta de Dick Farney à Odeon (pelo selo London)  depois de passagens pela RGE e pela Elenco, pelas quais ele soltou bons discos nos anos 60.

Gravado com uma composição de Trio - Dick ao Piano, junto com Sabá e Toninho, da formação original do Jongo Trio, respectivamente no Contrabaixo e na Bateria, com inclusão de alguns outros instrumentos em algumas faixas e a participação super especial de Lucio Alves em "Teresa da Praia", este LP trouxe uma sonoridade ainda mais moderna e requintada às gravações de Dick e se tornou um grande disco.

Muitas vezes as pessoas falam que Dick Farney se tornou um pouco solitário e esquecido, a partir de meados dos anos 60. Não sei se isto é verdade, mas algo é certo: depois deste grande LP, ele lançou ao longo dos anos 70 muitos outros, todos ótimos, pela Odeon, alguns dos quais, em dupla com Claudette Soares, sejam talvez o ponto mais alto de sua carreira. 

Como curiosidade, vale lembrar que das doze músicas apresentadas, apenas uma era inédita na voz de Dick - a inspirada "How About You?". As demais todas já haviam sido gravadas por Dick, a grande maioria delas até mais de uma vez, dentro do país (na Elenco, RGE, Odeon, Continental e Sinter) e nos Estados Unidos (através da Majestic).

Faixas:

01 - Marina [Dorival Caymmi]
02 - Ponto Final [José Maria de Abreu - Jair Amorim]
03 - Não Tem Solução [Dorival Caymmi - Carlos Guinle]
04 - Alguém Como Tu [José Maria de Abreu - Jair Amorim]
05 - How About You? [B. Lane - R. Freed]
06 - Uma Loura [Hervé Cordovil]
07 - Copacabana [João de Barro - Alberto Ribeiro]
08 - Este Seu Olhar [Tom Jobim]
09 - Tereza da Praia* [Tom Jobim - Billy Blanco]
10 - Perdido de Amor [Luiz Bonfá]
11 - All The Way [Jimmy Van Heusen - Sammy Cahn]
12 - Barqueiro do São Francisco [Alcyr Pires Vermelho - Alberto Ribeiro]

* Com a Participação Especial de Lúcio Alves

London / Odeon LLB 1081. Estereofônico
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domingo, 16 de janeiro de 2011

Roberto Menescal :: Bossa Nova [1963]


                Assim que chegou ao Brasil, em 1955, André Midani arranjou emprego na Odeon, que naquela época ocupava o primeiro andar do Edifício São Borja, na Cinelândia. Percebeu imediatamente que havia um filão ainda não explorado na música brasileira – o da música jovem e descobriu aí um potencial mercado a ser conquistado.
                Para ele, a música que correspondia aos anseios do jovem médio urbano era a Bossa Nova, gênero nascente com que estava muito entusiasmado, tendo sido apresentado por Chico Pereira, fotógrafo e colega da Odeon.
                A multinacional inglesa, que ainda era considerada uma gravadora de elite e tinha nomes de peso em seu catálogo, estava apostando em músicas de maior apelo comercial, valorizando muito os discos de artistas que conseguiam atingir as grandes camadas e que acabavam se tornando campeões de venda em 78 rotações. Por isto, não parecia muito interessante à gravadora investir em outros talentos,  baseando-se na política de “não se mexe em time que está ganhando”.
                De qualquer forma, Midani conseguiu, ao lado de Antonio Carlos Jobim, colocar na praça discos de João Gilberto, Sylvia Telles, Sérgio Ricardo e Lúcio Alves, além de “contratar” os meninos da bossa nova  - Carlos Lyra, Roberto Menescal, etc. Digo “contratar” assim, entre aspas, pois o “contrato” que Midani firmou com eles não passava de um papel datilografado com valor legal nulo.
                Mesmo assim, o conjunto de Roberto Menescal conseguiu lançar um 45 rotações Duplo (ainda não se dizia “Compacto”) no início de 1960. A Odeon, contudo, dispensou os serviços de muitos de seus chamados “cantores de elite” – Aloysio de Oliveira, que era o diretor artístico, demitiu-se em solidariedade aos colegas e André Midani foi cuidar de sua própria gravadora – a Imperial, constituída como subsidiária e financiada pela própria Odeon, com a missão de oferecer discos de porta em porta.
                Deu certo e a Imperial conquistou uma grande porcentagem do total de vendas da Odeon, mesmo que seus títulos também tivessem grande apelo popular – seus lançamentos eram, em grande parte, de discos de música instrumental “para dançar” focalizados em ritmos específicos tais como o bolero, o tango ou o cha-chá.  Ainda assim, escondidos sob pseudônimos que hoje soam bem engraçados – Ivan Casanova, Mike Falcão, Pablo Gavilán, entre outros – estavam os arranjadores de primeiro time contratados da Odeon – Lindolpho Gaya, Léo Peracchi, Walter Wanderley, Tom Jobim.  
                Este disco marca o reencontro de André Midani com o gênero musical que tanto o encantou. Gravado nos estúdios da Odeon no início dos anos 60 (chutaria 1963, pelo número de catálogo do disco, em comparação com outros do mesmo período), trouxe um grande repertório de clássicos do movimento – Corcovado, Menina Feia, O Pato – acoplados a novas músicas – Garota de Ipanema, Rio, Vagamente – e uma interessante releitura de Andorinha Preta  é um LP que trouxe um time de primeira, infelizmente não creditado e pode ter sido o primeiro álbum de Roberto Menescal.



Faixas:


01 - Corcovado [Antonio Carlos Jobim]
02 - Garota de Ipanema [Antonio Carlos Jobim - Vinicius de Moraes]
03 - Quem Quiser Encontrar o Amor [Carlos Lyra - Geraldo Vandré]
04 - Menina Feia [Oscar Castro Neves - Luvercy Fiorini]
05 - Influência do Jazz [Carlos Lyra]
06 - Rio [Roberto Menescal - Ronaldo Bôscoli]
07 - Só Danço Samba [Antonio Carlos Jobim - Vinicius de Moraes]
08 - Andorinha Preta [Breno Ferreira]
09 - Fala de Amor [Tito Madi]
10 - O Pato [Jaime Silva - Neusa Teixeira]
11 - Vagamente [Roberto Menescal - Ronaldo Bôscoli]
12 - Nós e o Mar [Roberto Menescal - Ronaldo Bôscoli]

Imperial IMP 30.060. Estereofônico
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quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Tito Madi :: A Fossa [1971]


Continuando a série de repostagens, volto com o LP "A Fossa", de Tito Madi, disponibilizado em 14/10/2006:

E agora o primeiro LP da tetralogia "A Fossa" de Tito Madi. Esses quatro álbuns foram lançados pela Odeon (embora utilizando-se do selo de representação London) entre os anos de 1971 e 1974. Embora o repertório seja o mais tradicional do gênero - Apelo, Canção da Volta, Chove lá Fora, Neste Mesmo Lugar, Manias, Demais -, engana-se quem pensa que vai encontrar arranjos melancólicos, cheios de cordas tristes e percussão chegada ao bolero. Muito pelo contrário. Instrumentos inusitados para o estilo, como a brasileiríssima Craviola, se fazem presente, em arranjos sofisticados a cargo de Luiz Eça (nos primeiros três LPs) e de Meirelles (no último deles).
Com vocês, a primeira parte da Fossa de Tito Madi.

Faixas:

01 - Apelo (Baden Powell - Vinicius de Moraes)
02 - Pra Dizer Adeus (Edu Lobo - Torquato Neto)
03 - Canção da Volta (Ismael Netto - Antonio Maria)
04 - Cansei de Ilusões (Tito Madi)
05 - De Onde Vens? (Dory Caymmi - Nelson Motta)
06 - Chuvas de Verão (Fernando Lobo)
07 - Sonho e Saudade (Tito Madi)
08 - Esquecendo Você (Antonio Carlos Jobim)
09 - Pra Você (Sílvio César)
10 - Eu e a Brisa (Johnny Alf)
11 - Fiz do Amor meu Canto (Tito Madi - William Prado)
12 - Reverso (Marino Pinto - Gilberto Milfont) / Se o Tempo Entendesse (Marino Pinto - Mario Rossi) / Sucedeceu Assim (Marino Pinto - Antonio Carlos Jobim).

Odeon / London - LLB-1077. Alta Fidelidade.*
Toque o microssulco, aqui.

* - Que idéia de porco da Odeon, em pleno ano de 1971 lançar um disco ainda em mono...