quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Resenha: Celly Campello - Box "Estúpido Cupido"


Hoje, ao invés de um disco, trago uma resenha que para o relançamento dos seis álbuns gravados por Celly Campello na Odeon.

Tendo começado a comprar discos há dez anos, em fevereiro de 2001, eu, então com 14 anos comecei a ter algumas fixações: a primeira delas havia sido pelos discos de 78 rotações. Em seguida, achei um 45 rpm com Nat Cole cantando “Noche de Ronda” e passei a escutá-lo muito (curiosamente, naquela época eu gostava muito mais de seus discos em espanhol do que o resto de sua discografia, que é muito superior). Finalmente, minha maior fixação, que durou mais tempo, foi com o rock brasileiro pioneiro da virada dos anos 50 para os 60.

Hoje estou mais ou menos “curado” dessa febre, mas continuo ouvindo pela milésima vez as músicas de Tony Campello, Ronnie Cord, Carlos Gonzaga e, principalmente, Celly Campello. Com o tempo, descobri muito mais gente daquela época cantando roquezinhos (a última foi Neuza Maria com “Balada Alegre” que até tenho escutado bastante), mas até hoje considero que a principal referência dessa geração seja mesmo Celly. E acredito que essa opinião é mais ou menos geral.

Conheci suas músicas meio por acaso, num dos primeiros discos que comprei: a trilha sonora da novela Estúpido Cupido, de 76, um dos LPs mais fáceis de encontrar em qualquer lugar. Conforme fui ficando mais ligado ao rock, passei a procurar incansavelmente as músicas que ela gravou. E até então não existiam blogs como este, poucas pessoas sabiam transferir músicas a partir dos discos e com quase nada em relançado CD – isso tudo aliado à crise que levou ao fim o Napster e o Audiogalaxy, dificultando o compartilhamento em mp3 – a maneira mais fácil de encontrar o que ela tinha gravado, por incrível que pareça, era caçando seus velhos discos da Odeon, que já naquele tempo eram difíceis de achar.

Assim, entre maio de 2002 e julho de 2003 fui encontrando, com muita paciência, um por um, os sete discos que ela fez. O primeiro que tive, e que veio de Juiz de Fora, foi o Estúpido Cupido (na hora que o LP chegou, pelo correio, um susto: o título diferente no selo – Come Rock With Me – me deixou momentaneamente achando que o disco viera trocado). O último, que veio de Santos, foi “A Graça de Celly Campello e as Músicas de Paul Anka” que me deixou com uma sensação não muito agradável de missão cumprida. No meio do caminho, a descoberta de raridades como o “Annette Sings Anka”, álbum dificílimo, que comprei pelo eBay e demorou três meses para chegar, de navio, e de onde o disco de Celly foi premeditadamente copiado (e ninguém sabia), foi muito bacana.

O fato é que eu imaginava naquela época que estes discos todos, assim como os de Tony Campello, Ronnie Cord e Carlos Gonzaga, deveriam ser relançados – pelo valor histórico e pela vontade de pessoas como eu tinham de ouvir estas músicas sem chiados, interferências e outros problemas. Só não sabia quando é que isso iria acontecer – ou mesmo se haveria mercado para isto.

Por acaso, recebi essa semana um e-mail do site da Discobertas informando estar disponível para compra um “box” com os seis discos gravados por Celly na Odeon em 1959 e 1968. Comprei imediatamente, mesmo já possuindo todas aquelas músicas. Sabendo que era uma produção do Marcelo Fróes, já imaginei uma edição cheia de faixas-bônus, capas e contracapas, textos e fotos.

E não fiquei decepcionado. Pela primeira vez estão reunidas em CD praticamente todas as 78 músicas que Celly gravou para a Odeon. Digo praticamente, pois, como colecionador, não posso deixar de notar a ausência de uma “quase faixa”, uma bobagem que no final das contas não faz a menor falta, que é a minúscula participação da cantora num disco do comediante José Vasconcellos, cantando menos de vinte segundos de uma paródia muito mais ou menos feita pelo próprio para Banho de Lua, uma curiosidade apenas que, se presente seria bem vinda, mas em falta, não faz a menor diferença.

Marcelo Fróes teve uma boa lembrança ao incluir, em “Canário” o diálogo original entre Celly, Tony e Hebe Camargo disponível apenas no raro LP “Hebe Comanda o Espetáculo”, de 61 (embora a faixa tenha sido um pouquinho modificada, sem as palmas ao final e com a música começando um tanto antes, ao comparada com a versão do LP).

Por outro lado, estão as capas de todos os compactos duplos que gravou na Odeon, inclusive os lançados em Portugal pela Parlophone e rara capa que o 78 rotações de natal contendo “Vi Mamãe Beijar Papai Noel” e “Jingle-Bell Rock” ganhou em 1960. Foram inseridos, também, os selos originais dos discos, bem como uma série de fotos raras em vários momentos da primeira fase de sua carreira, inclusive algumas capas da famosa “Revista do Rock”.

Como já é costume nos lançamentos realizados por Fróes, a arte original do disco está preservada, perfeita. As resenhas originais dos álbuns estão reproduzidas no encarte e, como surpresa especial, há textos complementares contando detalhes das músicas e das gravações que foram escritos por outro pioneiro – Albert Pavão, e, por isto mesmo, especialíssimos. Por ele, por exemplo, ficamos sabendo que o LP Estúpido Cupido foi gravado nos estúdios da RGE e que o disco Broto Certinho foi o mais vendido de 1960.

Sobre a qualidade do áudio, em primeiro lugar é preciso falar da alegria de escutar, pela primeira vez, as gravações realizadas em 1968 em Estéreo. Eu estava com medo de, por um descuido qualquer, elas saíssem novamente em mono, como no disco – que saiu com 90% das raras cópias em mono, embora tenha existido uma versão ainda mais difícil de encontrar do LP original em som estereofônico. Agora é possível observar muitos detalhes que estiveram encobertos na mixagem feita para apenas um canal. A música “Ao Meu Amor”, por exemplo, nunca havia sido ouvida em estéreo uma vez foi lançada apenas em compacto (que naquela época, só saia em mono).

Se a remasterização não foi a mais perfeita (gostei mais dos trabalhos de relançamento realizados na série Odeon 100 anos, na caixa da Elza Soares e de Wilson Simonal, todas do acervo da EMI), pelo menos a qualidade é bastante razoável, a não ser nas duas faixas-bônus do primeiro volume, “Devotion” e “O Céu Mudou de Cor”, que, possivelmente por não terem sido localizadas as matrizes originais, vieram com o som diretamente do 78 rotações em condições bastante precárias, único ponto que me chateou um pouco neste lançamento.

Quase dez anos depois, ao ouvir, faixa a faixa novamente, eu consigo compreender que o que Celly cantava não era propriamente rock, que os músicos que os acompanhavam não eram exatamente roqueiros e que, mesmo sem saber ou sem querer, o que ela fazia naquela época era digerir tudo aquilo que vinha de fora e imprimir um acento local muito forte. Pudera, com o acordeonista Mario Gennari Filho no acompanhamento e o coro dos Titulares do Ritmo, e ainda cantando letras bem feitas ou adaptadas por Fred Jorge, era possível não fazer música brasileira? Duvido.

5 comentários:

  1. Falem o que quiserem, mas Celly Campello sempre será, para mim, a precursora do rock brasileiro.
    Lembro-me, ainda, quando criança, de encontrá-la várias vezes nas Lojas Americanas de Campinas, quando íamos a Viracopos buscar meus tios, que viajavam muito.
    Valeu pela dica de que o boxed-set está disponível para venda. Já estou na caça do lançamento.
    Obrigado!
    Abraços.

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  3. Até que enfim, a rainha do rock recebeu uma grande homenagem...Antes tarde do que nunca...
    Ainda bem que existe gente disposta a divulgar música de excelente qualidade.

    Mafonte

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  4. Pena mesmo o link não estar mais ativo.

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  5. Pelo Visto, este maravilhoso Blog está perto de ser abandonado, será mêdo?

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