sábado, 22 de agosto de 2009

Aurora e Carmen Miranda [1975]

Em 1939, Carmen Miranda completava dez anos de atividade artística, com um saldo extremamente positivo: centenas de discos de sucesso (gravados na Victor, entre 1930 e 1935, e na Odeon, a partir de 1935) com músicas produzidas pela nata dos compositores da época, além de seis filmes que fizeram o furor da época (infelizmente quase todos considerados perdidos atualmente), um prestigiado programa semanal na Rádio Mayrink Veiga e uma reconhecida carreira internacional na Argentina, para onde ia quase todos os anos, sendo muito solicitada pelas rádios Belgrano e El Mundo.

Era então a mais famosa cantora brasileira, a de maior sucesso (a música no Brasil dos anos 30 era dominado quase que exclusivamente pelos homens, e cantoras como Aracy de Almeida, Linda e Dircinha Batista, Carmen Costa e Marília Batista só estavam começando a cantar nos programas de calouro e no incipiente rádio). Certamente, os vencimentos mensais de Carmen batiam os de Francisco Alves, Mario Reis e Silvio Caldas (talvez até somados), os grandes cartazes do disco e rádio.

No entanto, como muitas mulheres de sua época, Carmen alimentava o sonho de casar-se, ter filhos e... parar de trabalhar. Tanto que ela realmente chegou a fomentar esta idéia, comentando com Dorival Caymmi: “Caymmi, quer saber de uma coisa? Daqui a uns dias vou completar dez anos de atividade. Estou querendo mudar de vida. Acho que vou me casar com o Aloysio [de Oliveira]”¹.

De fato, Carmen mudaria completamente de vida em poucos meses, não para o claustro do lar, mas sim em revistas da Broadway, filmes da Fox, shows em night clubs, hoteis e teatros e programas de Rádio e TV nos Estados Unidos, graças ao empresário americano Lee Schubert que quisera contratá-la assim que a vira no Cassino da Urca durante o carnaval de 39.

Se a carreira de Carmen no Brasil foi brilhante, pode-se dizer que nos Estados Unidos esta carreira foi tanto ou mais prestigiada e vitoriosa do que entre nós – em certa época, Carmen podia se gabar se ser a mulher mais bem paga do mundo. Porém, por muito tempo, cultuou-se a ideia no Brasil de que Carmen “se vendera” aos dólares. Seus filmes, embora campeões de audiência em nossa terra, eram constantemente execrados pela imprensa. Seu comportamento e suas roupas eram tidos como motivo de “vergonha” para o Brasil (como se usássemos todos turbantes de frutas na cabeça, tivéssemos comportamento imaturo e vivêssemos em eterno carnaval, aliás, como se a própria Carmen usasse esses trajes em sua vida "civil"). Talvez por isto, seus discos lançados pela Decca americana não tenham chegado a nós na época em que foram gravados (à exceção de alguns poucos, prensados aqui pela Odeon e mesmo assim, com pequena tiragem) – o que foi uma pena, pois nos Estados Unidos Carmen gravou com a melhor qualidade técnica possível para a época (graças aos modernos estúdios mantidos por Jack Kapp, que deixavam estúdios brasileiros como o da Victor e da Odeon no chinelo). Além disso, ela foi muito bem acompanhada pelos talentosos rapazes do Bando da Lua, num um repertório que não era, ao todo, ruim. Na verdade, Carmen regravou muitas de suas músicas além de um ou outro sucesso brasileiro em voga no momento.

Somente a partir de 1974 que a gravadora Chantecler (representante aqui da MCA, sucessora da Decca) se lembrou dos esquecidos discos americanos de Carmen Miranda. Imediatamente, lançou uma coletânea com os principais sucessos (que ainda postarei aqui). Dada a receptividade do trabalho, soltou um novo LP com músicas do Bando da Lua gravadas no EUA e começou a trabalhar em um novo disco em homenagem a Carmen.

Foi quando o produtor J.L. Ferrete lembrou-se de que Aurora Miranda também tinha discos gravados nos EUA. Aurora, cuja carreira no Brasil foi tão prestigiada de tanto sucesso quanto a da irmã, foi levada por Carmen em 1941 para terras americanas a fim de também lançar-se no mercado. Foi uma empreitada muito bem sucedida (afinal, qual cantora brasileira, praticamente desconhecida fora do eixo Brasil-Argentina, de cara,participaria nos estúdios da Disney de um filme inovador para época, em que desenho animado e pessoas reais se misturavam, cantando em português ao lado de Pato Donald, Zé Carioca e grande elenco, e ainda por cima, fazendo grande sucesso?). Porém, se comparada com a carreira de Carmen, a de Aurora nos EUA foi bem pequena. Mesmo assim, ela conseguiu gravar algumas faces para a Decca, por intermédio da irmã.

J.L. Ferrete sabia somente da existência das faces “Pastorinhas” (de Noel Rosa) e “Cidade Maravilhosa”, pois foram lançadas no Brasil. Desconfiou, espertamente, que poderia haver outras músicas e, recorrendo à matriz americana, conseguiu a informação de que Aurora, de fato, havia gravado seis músicas nos Estados Unidos. Destas, apenas quatro foram lançadas (o mercado de discos americano era gigante, e, mesmo para Carmen Miranda, era muito difícil colocar um disco nas paradas – quanto mais para Aurora, que ainda por cima, gravara seus discos em português), e assim as duas outras ficaram esquecidas.

Quando da produção do presente LP, J.L. Ferrete, com profunda paciência que só os grandes entusiastas da música brasileira possuem, começou a garimpar as faixas. A matriz das duas inéditas era quase impossível de ser encontrada, depois de tantos anos, e ainda mais tendo sido gravadas em tempos de guerra, em que todo reaproveitamento de material era necessário (foi por esta época que as fábricas brasileiras começaram a derreter as matrizes originais de seus discos para reaproveitamento e economia de espaço, desfazendo-se de incalculáveis tesouros musicais gravados por aqui). Havia também matrizes de discos da Carmen que não eram encontradas e por um instante quase que o projeto foi cancelado.

No entanto, graças a um tremendo golpe de sorte, a MCA havia conservado todas as matrizes gravadas por Aurora, e aos poucos as de Carmen foram aparecendo, sendo possível a montagem do disco, que infelizmente, foi mal divulgado, resultando no fato de que poucas pessoas até hoje sabem de sua existencia.

Nele, vamos encontrar tanto Carmen quanto Aurora em sua melhor forma vocal – em certas faixas, Aurora canta com beleza inigualável (como em Pastorinhas, por exemplo). Carmen está alegre como sempre e suas gravações são empolgadíssimas. “Alô Alô” está sensacional nesta nova versão, e “Tique Taque do Meu Coração” soa melhor do que a gravação original brasileira. “Tico Tico no Fubá” ganhou cores latinas, “South American Way” mostra toda graça de Carmen cantando o refrão em com seu inglês carregado de sotaque brasileiro.

Aurora nos reapresenta “Cidade Maravilhosa”, contrastando de sua gravação original pela ausência de grande orquestra (apenas o Bando da Lua a acompanha). “Meu Limão, Meu Limoeiro” vem com o frescor das canções de folclore de antigamente e “Seu Condutor” (minha faixa predileta) nos remete ao Rio dos anos 30, com seus bondes ainda em circulação. “Pastorinhas” aparece em sua definitiva (embora pouco conhecida) gravação. “A Jardineira”, sucesso de Orlando Silva é revivido com muita competência – Aurora e o Bando chegam a fazer uma vocalização muito original ao final e “Aurora”, a marchinha, volta em tom de brincadeira, como trocadilho com o nome da cantora.

Através destas faixas, podemos entender porque Carmen e Aurora foram as mais bem sucedidas cantoras dos anos 30 – bonitas vozes (para mim, a voz de Aurora é inigualável), simpatia, músicas de altíssima qualidade e competente acompanhamento. Eis o segredo do sucesso.

Faixas:

Lado 1: Carmen Miranda

01. Alô... Alô... (André Filho)
02. Bambalelê (Brant Horta - Adaptação: Almirante)
03. O Tique-taque do Meu Coração (Waldrido Silva - Alcyr Pires Vermelho)
04. South American Way (Al Dubin - Jimmy McHugh - versão: Aloysio de Oliveira)
05. Boneca de Piche (Ary Barroso - Luis Iglesias) – com Nestor Amaral
06. Tico-tico no Fubá (Zequinha de Abreu - Aloysio de Oliveira)

Lado 2: Aurora Miranda

07. A Jardineira (Benedito Lacerda - Humberto Porto)
08. Aurora (Roberto Roberti - Mário Lago)
09. Pastorinhas (João de Barro - Noel Rosa)
10. Meu Limão Meu Limoeiro (Tradicional - Adpt. José Carlos Burle)
11. Seu Condutor (Alvarenga - Ranchinho - Herivelto Martins)
12. Cidade Maravilhosa (André Filho)

Acompanhamento: Bando da Lua, além de Zezinho (violão) e Vadico (piano).


MCA-Chantecler 4-07-404-099. Alta Fidelidade.
Toque o microssulco, aqui.

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¹ - De acordo com sua Biografia escrita por Ruy Castro e lançada em 2005 pela Companhia das Letras

3 comentários:

  1. nossa, que achado. adorei a matéria, pois carmencita e a aurora sao grandes intérpretes brasileiras. fato curioso que eu nem esperava: a biografia de aurora miranda é a mais buscada no meu site! grande abraço e parabens!
    www.cinemaclassico.com

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  2. Prezado Simon Boutman,

    Sou um fã apaixonado pela Carmen Miranda. Hoje, através de um leitor de seu blog conhecido meu, o 300discos, tomei cohecimento deste seu fantástico blog sobre música e discos de MPB. Como sou fã de carteirinha da Carmen, logo fui procurar o que existia no seu blog sobre ela e encontrei este post maravilhoso sobre o disco Aurora e Carmen Miranda [1975]. Gostaria de te pedir autorização para reproduzir este post no meu blog. Se quiser conhecer meu blog, aqui vai meu endereço: http://blogln.ning.com/profile/GilbertoLuizCruvinel

    Abraço
    Gilberto Cruviinel
    gilberto.cruvinel@gmail.com

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